A Ira de Nasi, o último roqueiro

Ex-cantor do Ira! abusa do idealismo e não faz concessões em biografia
22 de setembro de 2012 | 3h 11
MARCELO MOREIRA – O Estado de S.Paulo
A beatlemania estava no auge na Londres do segundo semestre de 1965, o quarteto de Liverpool era unanimidade e a rivalidade com os Rolling Stones era só fachada. Mas a situação fervia mesmo em vários pontos da periferia, com as brigas feias entre os mods e os rockers (algo como mauricinhos enfezados x roqueiros com cara de mau), como foi bem retratado pelo filme Quadrophenia, de 1979, estrelado por Sting e baseado na obra-prima da banda The Who.

Se Marcos Valadão Rodolfo tivesse vivido naquela Londres conturbada de 1965, teria pacificado os ânimos: teria sido um bad boy e extremado como um rocker, mas também antenado e versátil a ponto de abraçar o rhythm and blues venerado pelos mods. Líder nato, brigaria até o fim para impor sua visão de mundo, mas seria o primeiro a reverenciar a música boa, fosse qual fosse.

Intenso, teimoso e impulsivo, Nasi, o ex-vocalista do Ira!, travou um duelo particular com a sua natureza italiana para registrar suas memórias de forma crua e contundente, mas sem distribuir pontapés para todos os lados. A Ira de Nasi, a biografia do vocalista escrita pelos jornalistas Mauro Beting e Alexandre Petillo, abusa do tom reverente – Beting não esconde em um dos prefácios que é amigo do biografado -, mas cumpre o objetivo: retrata de maneira satisfatória como a ira e a fúria roqueira moldaram a personalidade contraditória do músico.

A dissolução litigiosa do Ira! em 2007 dá o tom do livro. Ainda bem, já que a obra surgiu dos escombros de uma biografia quase pronta de autoria de Petillo, que foi engavetada por conta da briga e do fim da banda. O texto até tenta evitar a mágoa o ressentimento, como se isso fosse possível ao contar uma história de 30 anos de carreira vividos no limite. Nasi não se preocupou nem um pouco com isso: não poupa os ex-companheiros, mas não força a barra. Dá a sua visão sobre a crise expondo fatos documentados e citando eventuais testemunhas, entre elas Rick Bonadio, conhecido produtor de pop rock e responsável pelo último álbum da banda, “Invisível DJ”, de 2007.

Consciência. O cantor gosta de sua condição de roqueiro rebelde e impulsivo. Ele reforça essa imagem nos depoimentos, e não se incomoda em deixar transpirar um idealismo artístico ao se referir de forma dura, mas respeitosa, a eventuais interesses meramente financeiros nos últimos anos da banda.

“Houve imaturidade e infantilidade nos debates, tanto na parte artística como na parte administrativa. O ego falou mais alto e afetou diretamente o resultado final de nossos trabalhos”, disse Nasi em entrevista ao Estado. “A liderança natural do Edgard Scandurra (guitarrista) começou a ficar forçada quando as contribuições dele diminuíram. Com o tempo, eu me impus e ele ficou preocupado. Vi que a coisa estava ruim quando, numa reunião, ele exigiu que 80% do material dele estivesse em um álbum. Ok, desde que houvesse material de qualidade para tanto. E fazia tempo que não havia. Ele estava desesperado para manter a fatia de direitos autorais e manter o seu padrão de vida.”

Seguindo a tendência no mercado internacional de biografias e autobiografias – exemplos de Eric Clapton e Keith Richards -, abordou com serenidade os assuntos espinhosos e dramáticos.

Foi corajoso ao citar os erros cometidos, as internações para reabilitação e casos assustadores, como o envolvimento com uma namorada atormentada pela família, ávida por lhe tomar a herança – houve perseguições, sequestro, agressões, muita polícia envolvida e uma longa batalha judicial. “Sempre houve briga no Ira!, mas a banda teve competência e sorte para manter a discrição. Foi muito pesado o que ocorreu em 1999, durante as gravações de Isso É Amor. Pouca gente soube desse problema comigo e minha namorada.”

Se conseguiu escapar dos excessos ao mencionar desafetos e ex-companheiros – e abusar da sinceridade ao longo do livro -, Nasi não se preocupou em amenizar a postura de vítima. Não perdeu as chances de enfatizar quanto foi injustiçado e traído na banda e pelo empresário – por ironia, o irmão dele, Ayrton Valadão Júnior. “Fiz o que pude para manter o Ira! unido e produtivo, mas as coisas só ficaram mais difíceis com o sucesso do Acústico, de 2005. Administrar aquilo era insano e ficou incontrolável. O fim foi inevitável, e bem desagradável como ocorreu.”

Entre virtudes e defeitos, parcialidades e unilateralidades, romantismo ideológico e rebeldia até certo ponto deslocada, A Ira de Nasi tem o mérito de reunir informações preciosas e detalhes interessantes dos anos 80. Ao lado de 50 anos a Mil, biografia de Lobão, é o melhor retrato do rock nacional.

Aos 50 anos, Nasi faz oito shows por mês e está prestes a lançar um novo álbum solo. Não sente falta do Ira!, faz questão de ainda ser um rocker em estado puro e de não fugir a uma briga com os mods. Continua fazendo a diferença em um mercado dominado por emos, hermanos e outros seres insípidos.

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Sobre nasioficial

Nasi nasceu Marcos Valadão Rodolfo em 23 de janeiro de 1962 em São Paulo, no bairro da Bela Vista. Filho de Airton Valadão Rodolfo e Egya Scarlato Rodolfo tem um irmão: Airton Valadão Rodolfo Junior (empresário do Ira! desde 1989). Funda em outubro de 1981 o grupo de rock Ira! com o colega de secundário Edgard Scandurra (guitarra) e com o amigo Adilson Fajardo (baixo) para participar do I Festival Punk da PUC. A banda prossegue após show de estréia e Nasi larga a Faculdade de História na Universidade de São Paulo. Em 1983 assina com Ira! contrato com a Warner onde grava, inicialmente, compacto com “Pobre Paulista” e “Gritos na Multidão”. Paralelamente assume a voz do grupo paulistano Voluntários da Pátria onde estréia em LP homônimo, primeiro e único dessa cultuada banda de Art-Rock aonde permanece até o final de 1984. Em 1985 grava o primeiro álbum do Ira! “Mudança de Comportamento” onde segue carreira até os dias de hoje. A partir de 1986 envolveu-se com a cena primordial do rap nacional e no ano seguinte é um dos produtores de “Cultura de Rua” pela Eldorado, primeiro álbum do hip hop brasileiro. Ainda como produtor assina, na seqüência, os primeiros álbuns da dupla Thaíde e DJ Hum (“Pergunte a Quem Conhece” e “Hip Hop na Veia”). Em 1991, após uma série de shows com o Ira! nos EUA, funda a trupe Nasi e os Irmãos do Blues que passaria nas jams sessions no circuito noturno paulistano para uma carreira solo discográfica: 1994: “Uma Noite com Nasi e os Irmãos do Blues; 1996: “Os Brutos Também Amam”; 2000: “O Rei da Cocada Preta”. Durante esses 15 anos, paralelamente ao Ira!, escreve com destaque seu nome no cenário do blues nacional participando de todos os festivais internacionais no Brasil tocando ao lado de lendas do gênero como Pinetop Perkins, Mat “Guitar” Murphy, Roomfull of Blues, Magic Slim, John Hammond, Wilson Picket e outros. Em 2006, após encerrar a bem sucedida turnê do Acústico MTV Ira!, lança o elogiadíssimo “Onde os Anjos Não Ousam Pisar”. Auto – produção sem a grife Irmãos do Blues, que reúne vários convidados e outros gêneros musicais como Rap, Rock, Soul, e Baladas. Solteiro, pai de duas filhas, Nasi mora em São Paulo no bairro do Butantã, é São-Paulino e desenvolve programa de rádio que mistura música e futebol. Nasi posou na seção Eu Queria Ser... da revista MTV, em 2003, como o X-Men Wolverine. Gostou do visual e resolveu adotá-lo, o que lhe rendeu o apelido "Wolverine Valadão" no campeonato Rockgol, além de posar como o personagem na capa de seu recente álbum solo. Em setembro de 2007, depois de brigas com seu irmão e empresário, Airton Rodolfo Junior, e com os demais integrantes do grupo Nasi acabou saindo do Ira! o que acabou levando ao término da banda. Nasi se tornou personagem de desenho animado e foi o protagonista da série "Rockstar Ghost", transmitida pela MTV Brasil. A série conta a história de um caçador de fantasmas, que trabalha na repartição pública AFFFE (Agência Federal de Fiscalização de Fenômenos Espectroplasmáticos), especializada em capturar celebridades musicais já mortas. Os mortos voltam à vida, quando um disco seu é tocado ao contrário. Nasi atuou no filme "Sem Fio" dirigido por Tiaraju Aronovich, no longa-metragem, ele vive o protagonista Castro, viciado em cocaína que é casado com Marisa, uma mulher insatisfeita e entediada com sua rotina de trabalho. Durante uma festa de pré-lançamento do filme Nasi apresentou sua nova banda: Júnior Moreno na bateria, Nivaldo Campobiano na guitarra, André Youssef no teclado e Johnny Boy no baixo. Links: Site oficial: www.nasioficial.com.br
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